Raio-X do transporte de RP

 

Antes de sonhar com o descanso depois de tanta trabalhar, o ribeirão-pretano tem que enfrentar a realidade do transporte coletivo da cidade


POR Renan Gouvêa

Andar de ônibus em Ribeirão Preto no horário de pico é uma aventura onde pode acontecer de tudo. Em determinados momentos você tem que se segurar para não cair e às vezes tem que berrar para descer.

Para enfrentar e tentar entender essa realidade convidei o gerente da área de transporte coletivo da Transerp, Reinaldo Lapate, para andar de ônibus junto comigo no horário de pico noturno. Meu convite foi rejeitado. “Estava de férias e agora tenho que resolver os problemas que acumularam com minha ausência”, esclarece.

Convidei também o Coronel Antônio Carlos de Muniz, superintendente da Transerp. Outro convite recusado. “Vou mandar o Lapate no meu lugar”. Como, de antemão, eu já sabia da resposta, resolvi ir sozinho.
No ponto

Fui até a rua Tibiriçá, Centro, às 18h20 para pegar o Jardim Juliana. O ponto estava cheio. Vinte minutos depois o ônibus chegou lotado e cinco das quase quinze pessoas que queriam pegar transporte tiveram que ficar do lado de fora, incluindo uma mulher com criança de colo e eu. Nossa opção foi esperar outro ônibus.

Em seguida chegou o Parque dos Servidores. Resolvi apanhá-lo por desconhecer o horário do próximo Jd. Juliana. A mulher com a criança também embarcou nessa. “Esse ônibus para um pouco longe de casa, mas prefiro ir nele mesmo”, comentou. Na fila para entrar no transporte, dei prioridade aos idosos e mulheres. As demais pessoas pareciam não se importar.

Já dentro do ônibus, senti um ar abafado e pesado, apesar de todas as janelas estarem abertas. Muita gente, até uma criança que chorava incansavelmente e sua mãe aparentemente despreocupada com a situação. Nesse clima, segui viagem.
No itinerário.

Na Avenida Treze de Maio um senhor “fora do ponto” tentou parar o ônibus apresentando a carteirinha de idoso. Devido sua idade avançada, me surpreendi ao vê-lo correndo, mas o esforço foi em vão. Agora ele terá que pegar o próximo, depois de meia hora.

De repente: “Espera motorista. Vai descer”, gritava uma mulher. O grito se intensificou com a ajuda dos mais de 30 estudantes que estavam dentro do Parque dos Servidores. Foi um “auê” só. Com a ajuda coletiva ela pôde descer no destino desejado.

Ainda na Treze de Maio, o motorista parou o ônibus para chamar a atenção de um grupo de cinco estudantes que estacionaram-se na porta. Um deles era gordinho. “Assim ninguém consegue descer”, disse o motorista aos estudantes. Após o grito, os estudantes saíram sem reclamar.

Após saírem da porta, o mesmo grupo continuava a atazanar o motorista por ficar, a cada ponto, puxando a cordinha do sinal para descer. Todos riam. Confesso que no começo eu até achei engraçado, mas depois fiquei irritado, junto com o motorista. Antes que lhe chamassem a atenção, pararam. Mas por pouco tempo.

No fundo começou um empurra-empurra entre os meninos. Um deles correu em direção da porta e disse: “Vocês são loucos. Se eu não saísse daí a tempo eu não seria mais virgem”, brincavam.

Outra brincadeira dentro do ônibus é: segura para não cair. Nas rotatórias das avenidas  Treze de Maio, rodovia Castelo Branco e da rua Presidente Kennedy, tive que me segurar em dobro para não ir de encontro com o chão. Uma mulher que viajava em pé do meu lado apoiou-se em mim. “Desculpa moço. O ônibus está muito rápido”, explicou ela. Desculpei-a e me ofereci para segurar suas sacolas. Desconfiada, não aceitou minha gentileza.
Pronto para descer

Lembram daquela criança que estava chorando assim que eu entrei no ônibus? Pois é, ela continuava com o choro. Talvez por conta do desgaste da viajem de mais de meia hora do centro até o bairro.

Resolvi interromper meu dia de usuário de transporte coletivo no ponto do Postinho do Jardim Juliana. Do outro lado da rua eu peguei o Parque São Sebastião para ir até a redação do Jornal do Ônibus. Foi a mesma aventura.

Com essa experiência, percebi que depois de um dia de trabalho ou estudo, o ribeirão-pretano apenas quer chegar o mais cedo possível em casa, mas antes eles têm que enfrentar o cansativo percurso do transporte coletivo. Talvez, agora, entendo o motivo pelo qual o Lapate e o Muniz não quiseram andar de ônibus comigo.

2 Comentários

  1. É Renan, eu bem sei como é essa vida de ônibus lotado. Achei muito corajoso da sua parte convidar o Lapate e o Muniz pra pegar ônibus com você. É claro que eles recusaram. Será que um dia isso vai melhorar?

  2. Nossa…vc eh o melhor…
    eles não imaginam o q acontece dentro de um onibus lotado.
    deveriam sim ter ido com vc….
    bj


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