Ribeirão Preto precisa melhorar a qualidade de ensino

Comunidade local faz função da prefeitura ao transformar garagem em aulas de reforço escolar e cozinha em sala de alfabetização para adultos

 

POR Renan Gouvêa

(Fotos: Daniel Almeida).

Atraso escolar, armas na sala de aula, exclusão e direito prolongado de frequentar uma instituição de ensino são problemas de Ribeirão Preto a serem “comemorados” na cidade. Por outro lado, são justamente esses problemas que motivam ribeirão-pretanos a fazer a diferença na comunidade em que vivem. São pessoas que fazem da garagem uma escola para receber crianças com dificuldades de aprendizagem. Outros fazem da cozinha uma sala de aula para garantir o direito de infância do adulto de aprender a ler e a escrever. Para especialistas, essas revelam que o governo se omite ao deixar a comunidade local fazer a função de melhorar o ensino.

2_violencia1Um dos principais problemas da educação tanto nacional como do município é o atraso escolar de crianças. Dados do Instituto Nacional “Entendo como atraso escolar o aluno que não consegue acompanhar o ritmo da turma. Muitos pensam que atraso está relacionado a repetência e não é isso”, explica a especialista em atraso escolar, Edna Marturano, da USP de Ribeirão Preto.

Além do problema de não conseguir acompanhar a turma em atividades dentro da sala de aula, ainda segundo a especialista, o aluno sofre com preconceitos por serem tachadas de “burros” por colegas de turma e até mesmo pelos professores. “Infelizmente existe casos de rotular o aluno de ‘incapaz ‘dentro da sala de aula”, afirma Edna.

Para estimular o aprendizado das crianças que apresentam atraso escolar o Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto atende anualmente 80 alunos da rede pública de ensino, mas o número pode ser ainda maior. “Muitas pessoas deixam de nos procurar por desconhecimento do trabalho desenvolvido pelo departamento”, comenta Edna, ressaltando que o método de ensino com as crianças é de motivar a aprendizagem. “Dizemos ‘muito bom’ ou ‘parabéns’ para a criança que completou a atividade. Nas escolas isso deixa de acontecer.”

Motivando as crianças

Outras 40 crianças do Orestes Lopes de Camargo, Zona Leste de Ribeirão Preto, também recebem motivações para continuarem com a vontade de aprender cada vez mais. A ajuda vem da telefonista Sônia Soranzo, 49 anos, e do vendedor ambulante Jéferson Andrade, 44 anos, que abriram o portão de casa deles para idealizarem o projeto Suave Caminho que já existe há três anos.

Ambos são portadores de deficiência física. Trabalham na parte manhã e a tarde ensinam o pouco que sabem para as crianças do bairro. “Não somos alfabetizadores. Somos um casal que sonha em fazer a diferença onde moramos. Tem estudante que vem aqui sem a menor noção de matemática e aqui ajudamos eles a compreender melhor a disciplina”, conta Sônia, que não chegou a concluir o Ensino Médio.

Para caber as crianças dentro da garagem, o casal resolveu dividir o número de seus alunos em duas turmas. Recebem lápis, caderno, borracha e incentivo a melhorar quando erram algum exercício. “O legal é ver no rosto da criança um sorriso quando falamos que ela está indo bem na disciplina. O pouco que sei eu procuro transmitir”, disse Andrade, que estudou até a 5ª série do Ensino Fundamental.

De acordo com dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2003 do Ministério da Educação revelou que 55% das crianças da 4ª série no Brasil apresentam problemas em ler textos simples, curtos, escritos na ordem direta e de encontrar tais textos as informações explícitas. Não existem dados sobre atraso escolar no município de Ribeirão Preto.

Jovens não querem aprender

Enquanto as crianças do Orestes Lopes de Camargo ganham lápis e caderno, o material escolar dos alunos da Vila Elisa são balas de revólver e até mesmo canivetes e navalhas. O ensino na escola é o da sobrevivência e intimidação onde sai literalmente ferido o estudante que não se encaixar nas “leis” dos alunos veteranos. “Vejo droga, arma e faca dentro da escola. Tenho medo de estudar aqui”, disse J.C. dos Santos, de 12 anos, aluno da escola estadual Romualdo Monteiro de Barros.foto_1violencia1

As leis dos alunos mais velhos tiraram o direito do menino Orlando Rodrigues da Silva Júnior, 13 anos, de frequentar a escola quando ele tinha sete anos. “Queriam que eu entrasse com droga dentro da escola com a minha mochila. Não aceitei e me bateram. A diretora da escola resolveu me expulsar”, lembra o garoto que até hoje não retornou para nenhuma escola. “Queria aprender a ler e a escrever, mas minha mãe não tem condições de pagar ônibus para eu ir em outra escola longe de casa”, afirma.

Armas, drogas e brigas dentro dos muros das instituições de ensino de Ribeirão Preto não é nenhuma novidade para o especialista em problemas de violência nas escolas públicas, Sérgio Kodato, do departamento de Educação da USP de Ribeirão Preto. Segundo ele, o aluno problemático geralmente é caracterizado por não conseguir se relacionar com os demais ou por apresentar improdutividade escolar. “A violência está aumentado e ninguém faz nada. Intimidação, gozação e humilhação do mais fraco acontecem nas escolas e a medida do aluno é se defender”, comenta o Kodato.

O especialista, que também é coordenador do Observatório e Práticas Exemplares de Ribeirão Preto, ainda comentou que atualmente é mais fácil o aluno vender drogas dentro da sala de aula do que aprender dividir ou subtrair.

Para Kodato, os professores e diretores de instituições públicas são, em partes, culpados com a realidade da criminalização dentro da escola por não fazer denúncias com medo de represálias. “O governo peca diante dessa problemática porque nos bairros periféricos estão as piores escolas e professores inexperientes quando se devia ser o contrário”, disse o especialista, ressaltando que o sentido maior da escola como principal transmissora de conhecimento e aprendizagem “foi para o buraco”.

Ensinando adultos

A Carta da Educação em Direitos Humanos da ONU diz que toda pessoa tem o direito de frequentar uma escola. Segundo o dados do Ministério da Educação cerca de 16 milhões ainda não conseguiram alcançar o direito de frequentar uma sala de aula. Uma dassas pessoas é o ribeirão-pretano Flaviano Matias Gomes, 79 anos. Ele descobriu que podia entrar em uma sala de aula depois de quase oito décadas de vida. “O mais difícil foi eu aprender o A, B,C. No começo eu não sabia quem vinha primeiro”, revela.

Gomes garantiu o direito de aprender a ler e a escrever na cozinha da comerciante Beatriz Helena da Silva Lene, 49 anos. Ela alfabetiza 15 adultos de 24 a 80 anos do bairro Adelino Simioni desde 2006, quando foi afastada do projeto Brasil Alfabetizado do governo federal por não ter diploma de graduação. “Percebi que tiraram não o meu direito de dar aula. Tiraram também o direito do adulto de aprender e aí resolvi fazer da minha cozinha uma sala de aula”, explica.

Como Beatriz perdeu o emprego de alfabetizadora ela precisa deixar seus alunos na cozinha por alguns instantes para atender os clientes que a chamam na janela do bar que ela toca na rua Domingos Angerani. “As vezes alguém me grita e eu vou logo atender os clientes. Quando volto para a cozinha os alunos estão ajudando um ao outro”, disse a alfabetizadora voluntária.

De acordo com dados do Ministério da Educação de 2000 4,4% da população adulta de Ribeirão Preto são analfabetas, mas a Secretaria Municipal da Educação acredita que existam outros três mil jovens e adultos que não sabem ler e nem escrever. Para se ter uma ideia da proporção, é como se outras 200 salas de aula iguais a da Beatriz estivessem com suas portas fechadas, excluindo e prolongando o direito de infância do adulto de frequentar uma escola.

Para o especialista em educação, José Marcelino de Rezende Pinto, da USP de Ribeirão Preto, os dados do município e a iniciativa própria da Beatriz são encaradas por ele como omissão do governo municipal frente ao problema da alfabetização de adultos. “Conheço outras pessoas que montaram uma biblioteca em casa e resolveram dar aulas para adultos. Isso é bom, mas também revela que o a Prefeitura deixa a sua parte de melhorar a educação por conta de pessoas bem intencionadas”, comenta.

One Trackback/Pingback

  1. Por Destaque « Jornalismo com Seriedade em 02 Mai 2009 às 11:44 am

    [...] An0s de BoSSa NoVaNo BusãoCotidianoReligião e o sangueEducação ESPECIAL4º Prêmio Vladimir HerzogMeio Ambiente3º Prêmio Banco RealCuide de [...]

Comente

*
*