Uma ocorrência indevida

 

Com a cabeça, sei lá onde, registrei um Boletim de Ocorrência da minha carteira que eu mesmo havia perdido. Até aí tudo bem. Outra pessoa normal também tomaria a mesma atitude. Afinal poderiam usar seus documento e tudo mais.

Acontece, leitor, que quem fez o BO fui eu. Quando se fala de “Aconteceu” comigo, pode-se esperar de tudo. Podem até pensar na possibilidade da carteira estar o tempo todo em meu poder. Podem pensar ainda que na hora de confirmar o número do CPF para o policial, eu tive a brilhante idéia de abrir minha mochila, retirar “a carteira perdida” e consultar a numeração.

Pensaram isso? Ótimo! Valeu pelo “burro”. Mas foi isso mesmo que aconteceu. Deixe-me contar.

 

POR mim mesmo

        No início deste ano, 2008, eu estava focalizado em um projeto profissional. Queria de alguma forma pertencer a equipe de jornalismo no jornal A Cidade. Durante as férias de verão eu realizava reportagens especiais para meu próprio aperfeiçoamento. Só que por uma razão desconhecida estava perdendo muito os meus pertences e dos outros também.

        Ao todo eu tinha contabilizado a perda de um gravador digital de R$ 300 que nem era meu, meu celular com todos meus contatos – este era meu, né – minhas fitas do gravador analógico, meu caderno de faculdade, meu óculos – hoje eu achei – e até hora de compromisso com entrevistados eu esquecia.  

        Exatamente no dia 11 de abril fui pagar a mensalidade da auto-escola. Retirei o dinheiro do bolso da frente e paguei. Só que na hora de guardar minha carteira eu a coloquei em outro bolso da mesma mochila.

Em seguida fui para o serviço da Ludmila, grade amiga. Havíamos combinado de jantarmos juntos antes da faculdade. No caminho da auto-escola, Mariana Junqueira, até o serviço da Ludmila, no calçadão de RP, andei com o bolso da mochila aberto. Fui notar o incidente quando cheguei à sala da Lud. Logo que tirei a mochila das costas observei o bolso aberto e pensei: “C…io! A carteira caiu no meio do caminho.”

- Calma, olha direitinho se não está em outro lugar. Pediu a Lud.

De fato foram sabias as palavras, mas nem dei bola para a solução “salomônica” dela.

 

Procurando o encontrado

        Fiz o percurso tudo ao contrário. Passei pelo segurança do prédio onde a Lud trabalha e perguntei para ele se ninguém tinha encontrado minha carteira. “Não”, respondeu. – Claro que não. Cheguei na auto-escola e perguntei se não havia esquecido lá. “Não”, responderam. – Claro que não.

        Voltei no prédio e disse para a Ludmila que eu iria fazer um BO antes que alguém utilizasse meus cartões bancários – olha que chik. “Então vai rápido”, disse ela.

        Passei no calçadão e soube pelos policias que fazem plantão lá que eu deveria registrar a perda por lá mesmo. “Não. Só lá na Duque de Caxias”, informou-me um policial. Até reclamei com ele perguntando o porquê eu não podia fazer lá mesmo. Ele apenas me fuzilou com olhares de poucos amigos.

       

Na delegacia

Cheguei lá ás 17h10. Não tinha ninguém para me atender. Havia uma placa informando: “Não entre. Espere ser chamado”. Assim fiz.

        Não tinha ninguém naquele corredor. Só dava eu. “Como alguém vai saber que eu estou aqui. Como vão me atender?”, perguntava a mim mesmo.

Passaram-se 15 minutos e nada.

Acredite, fiquei educadamente ali esperando.

NADA.

Foi aí que resolvi assobiar alto. “Quem sabe não me escutam.”

NADA.

Passaram-se 30 minutos e só estava eu ali naquele mesmo corredor.

“Agora eu vou cantar e alto”, pensei. Brilhante idéia, né!?

Comecei com “Dias atrás” do COM 22.

NADA.

Apelei para Xuxa no maior estilo “Lari-Lari ê”. Fiz até uma paródia.

- Tá na hora, tá na hora. Tá na hora de me atender. Puxa vida mais que raiva. Aqui NINGUÉM quer aparECERrrr! 

De repente…

- Psiu!? O que você quer? Perguntou um policial. Não o vi chegar. Acho que eu cantava bem alegremente para não ter visto.

- Vou querer um quilo de carne para o churrasco. Pensei.

Expliquei a situação para ele e fomos numa sala fazer a ocorrência. Ele pediu para eu esperar mais “uns minutihos”. Aff. Continuei a cantar. Desta vez só para mim.

       

Enfim, o mico

Passado 40 minutos desde o começo, resolveram me chamar. Pediram para eu entrar na sala. Tinha dois policiais. Um de cara de sinistra disse ao parceiro que iria me atender e depois ia embora para casa.

        - O que você quer?

        - Acho que vou fazer um Boletim de Ocorrência. Respondi ironicamente.

        - Do que se trata?

        - Da minha carteira que perdi.

        - Descreve ela para mim.

        - É preta. Dentro dela tinha meu RG, CPF, Titulo de Eleitor, Cartões bancários, Carteirinha de estudante da faculdade e outros objetos pessoais.

        - Fale os números do RG e CPF. Pediu o policial que não tinha a menor intimidade com o teclado do computador.

        Com os dedos indicadores ele digitava letra por letra. Isso estava me deixando nitidamente irritada. Até me prontifiquei a digitar. Ele só me encarou e continuou o serviço.

        Como se não bastasse o sistema ficou fora do ar. 

        - Só sistema? Disse.

Não demorou muito o sistema estava de volta. Aí o policial me pediu o endereço de casa incluindo CEP, telefone residencial e mais uma vez os números do RG e CPF. Cara era muito número para mim. Fui confirmando um por um, mas fiquei em dúvida do CPF.

        Involuntariamente, JURO, eu abri vasculhei minha mochila até encontrar minha a tal carteira preta. Encontrei. Puxei o CPF e disse:

        - É isso mesmo seu ‘pulicia’.

        - Você só pode estar brincando comigo. Cadê a câmera meu Deus? Dizia o policial.

        Eu até xinguei. Não tinha, ainda, entendido. Fiquei de pé para falar poucas e boas. Quando fui apontar o dedo para o policial logo percebi que a tal carteira perdida estava comigo.

Puts. De imediato eu sentei e abaixei minha cabeça.

Tava morrendo de vontade de rir. Me segurei muito. Até pedi para cancelarem o BO, mas não dava. O policial já tinha dado baixa. Assinei sete laudas.

- Pronto agora você pode ir.

       Quando eu ia embora, dei uma espiada no BO. Nele dizia:

“Relata a vítima de cutis parda ter perdido sua carteira preta…”.

Não agüentei. Sentei no chão e comecei a dar muita risada. Minha barriga doía de tanto rir.

Mais uma vez, de repente, o policial apareceu do nada e me deu um “pedala”. Começamos a conversar. Ele me disse que também estavam dando risada da situação. E não era para menos.

Contei para a Lud. Riu muito. No outro dia, dentro do ônibus, já sabiam da minha façanha.

        Nisso tudo só me pergunto. “Vou um dia me superar?”

Um Comentário

  1. Renan do céu como vc conseguiu essa proeza?Nunca conte isso qdo vc estiver na redação do Estadão heim, ou será demitido na hora hahahahha Como pode?
    “Relata a vítima de cutis parda” – essa foi ainda mais engraçada!!
    beijoss garoto, sucesso pra vc!


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