“Entrevista”

Não há dúvida que os conceitos e os preconceitos que outros têm sobre a velhice influem sobre como a pessoa se sente na idade avançada. Mas o fato de a pessoa sentir-se bem na velhice depende em grande parte de sua maneira de encarar a vida. A entrevista com a Doutora Martha Maria dos Santos revela alguns segredos de permanecer ativo e feliz, mesmo com a idade avançando. O colóquio a seguir foi realizado no dia do aniversário da Martinha (27 de outubro de 1941), posteriormente utilizada em um trabalho de Semiótica.

 

A Martinha que estudou sem computador 

Cabelos pintados, óculos para auxilio da leitura e mais de meio século de vida dizem tudo. Aos 66 anos recém completados, no dia 27 de outubro, a paulistana Marta Maria dos Santos, a Martinha, simboliza experiência de vida. Ela que literalmente viu o advento da tecnologia virtual já ficou dias esperando o carteiro vir com a correspondência assinado pelo seu namorado. Filha única e mãe de um único filho, Marta Santos é lembrada por meio de fotos e placas pregadas no corredor da Federal de Franca como sendo exatamente a segunda mulher brasileira a se tornar Mestra em Sociologia. Pela inexistência dos recursos tecnológicos a Martinha, no seu vigor juvenil, chegou a ministrar aulas de datilografia e taquigrafia para 20 pessoas. Atualmente titulada doutora, Marta, já instruiu milhares de profissionais formados pela Universidade de Ribeirão Preto. Como outro qualquer, ela anseia saúde e energia física para continuar suas aulas na faculdade a qual está há ininterruptos 32 anos. 

 

Entrevista a Renan Gouvêa  

Renan Gouvêa – Martinha, quando a senhora começou a pensar em fazer sua dissertação de Mestrado?

Marta Santos, a Martinha – Na verdade a minha profissão exigiu isso. Mas para você ter uma idéia a palavra “mestrado” praticamente não existia na minha época de graduação que por sinal nem você e nem meu filho tinha nascido (risos).

Renan – Eu nasci em 88.

Martinha – Pois é… estou aqui faz mais de 30 anos!

Renan – Mas e ai? Como foi a defesa de Mestrado?Martinha – Eu defendi a minha dissertação na Federal de Franca. Jornalistas de TV, rádio e jornal estavam lá acompanhado tudo!

Renan – Algo de especial estava acontecendo?

Martinha – Sim! Eu fui a segunda mulher a defender uma dissertação de mestrado em sociologia. Primeiro foi minha amiga e logo em seguida eu. Inclusive eu sou a 62ª Doutora do país. Soube disso porque minha orientadora me falou, caso contrario eu nem saberia.

Renan – Quais os recursos tecnológicos a senhora usou para elaborar a defesa?

Martinha – Você quer saber se foi o computador? (ri). Usei sim. Na época já tinha computador que por sinal é uma maravilha. Hoje eu cheguei a conclusão de que a tecnologia tem que vir mesmo. Ela é necessária. Ela agiliza as coisas. Na minha adolescência agente esperava o carteiro e hoje da para eu conversar com algum parente no Rio de Janeiro e por aí vai. Enfim… era horrível escrever naquelas máquinas cujos erros eram irreparáveis. Errou, começa outra vez.

Renan – A Senhora falou de correio. Por acaso a Martinha namorou por carta?

Martinha – Namorei! Meu primeiro namoradinho era daqui de Ribeirão Preto porque meu pai era daqui e eu vinha direto para Ribeirão. Foi aí que eu conheci um rapaz na praça, mas depois eu tive que ir embora e foi assim que ele começou a me escrever. Ou melhor, foi assim que começamos a trocar correspondências. (avermelha Matinha).

Renan – Era a mão ou datilografada as cartas?

Martinha – A mão! Falando nisso, nos meus 17 anos eu já sabia usar a máquina de escrever para datilografar e taquigrafar.  

Renan – Taquigrafar?

Martinha – A taquigrafia antecede o gravador. Nós anotávamos alguns sinais que representavam uma determinada fala ou objeto. Uma linguagem nossa que depois era transformada em texto. Meio que uma tradução. Mas eu não era taquigrafa. Eu só tinha que usar esse recurso, mas nunca me formei com diploma nessa área. Se bem que também eu dei aula para umas 20 a 30 pessoas no meu primeiro emprego. Hoje com o advento do gravador esse recurso saiu de uso. Literalmente obsoleto.

Renan – Alguma mudança comportamental observada pela senhora com a vinda do computador? 

Martinha – Depois que as pessoas passaram a dominar o computador elas ficaram mais “imediatistas”.

Renan – Mas o brasileiro já não é “imediatista” por natureza?

Martinha – Pode até ser, mas o que eu quero dizer é que nós ficamos mais acelerados. No caso das cartas as pessoas ficavam dias esperando a correspondência chegar. Eu, por exemplo, não tenho a menor paciência de esperar o computador ligar. É uma demora tão grande que eu vou fazer outra coisa enquanto ele liga. Eu só não entendo o porquê as pessoas ficam dez a quinze horas em frente ao computador usando ele sem ser com seu trabalho. As pessoas têm que perceber que ela não pode ser escravo da tecnologia. Ela que é nossa escravinha.     

Renan – A Martinha de hoje é realizada profissionalmente?

Martinha – Nós nunca podemos pensar assim. Sempre há coisa a ser feita e coisa a se fazer. Não podemos parar na vida. Eu só cheguei onde eu queria chegar. É muito bom na minha profissão ver meus alunos chegarem onde queriam chegar. Ver o nome deles nos créditos é algo que me traz  mais satisfação. O professor Sebastião Geraldo, coordenador do curso de comunicação, o coordenador do curso de direito e até a assessora da USP-RP a Rosemeire Talamone foram meus alunos.           

Renan – Eu fiquei sabendo que a senhora está fazendo aniversario hoje (27 de outubro), algum desejo especial?

Martinha – Não penso em bens materiais. Só quero ter saúde e preservar minhas amizades, pois são essas coisas que lhe dão vontade de viver. O resto…agente corre atrás! (risos)

Renan – Que seja assim né?

Martinha – Amém!

Um Comentário

  1. Ela foi a minha orientadora na monografia (e da Ana Kehl), além de ter me dado aula dois anos. Quanta sabedoria, quanto aprendizado…grande Martinha!
    Divulguemos a história de profissionais como ela, Renan. Parabéns.


Comente

*
*