Mata Atlântica renasce em quintal
A extinção da Mata Atlântica não existirá por conta da atitude de um aposentado que tem cerca de 10 mil m² da floresta no seu quintal. A fauna e a flora dessas florestas viram no seu terreno o refúgio para sobreviverem. Entre eles, quatro Pau-Brasil
POR Renan Gouvêa
No momento em que você lê as primeiras linhas desta reportagem, oito hectares de reserva natural no planeta terão desaparecidos, segundo recente publicação da revista americana Newsweek. Parte dessa destruição acontece no Brasil. De acordo com a Fundação SOS Mata Atlântica cerca de 93% da floresta Atlântica, que abrangia 16 Estados da costa brasileira, foram destruídas pelo homem e os restantes 7% continuam em processo de extinção.
Esse número só não é maior por iniciativas como a do aposentado José Milton Ferreira Paiva, 60 anos. (Foto á direita) Em 1982, Paiva comprou um terreno de 16 mil m² no bairro Recreio Internacional da cidade de Ribeirão Preto-SP e transformou o depósito de lixo e entulho que existia ali em uma verdadeira reserva natural com plantas e árvores do Cerrado e Mata Atlântica.
Depois de 25 anos plantando mudas típicas das florestas, podemos encontrar no quintal da sua residência árvores nativas como Ipês de sete cores diferentes, Apus-d’arco, Jequitibás, Jacarambás, entre outras cem variedades que existem no terreno. “O quintal de casa é uma floresta. Às vezes descubro que uma fantasia é realidade. Falo isso porque vejo uma folha e na verdade é uma borboleta”, comenta o aposentado.
O quintal do sr. Paiva soma hoje 10 mil m² de coisas vivas, chamado pelos cientistas de biodiversidade. Nessa floresta a flora e a fauna voltaram a existir quando autoridades acham inevitável a extinção de algumas espécies.
O exemplo real da devastação das florestas nacionais está no “Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção” apresentada pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc. Na publicação o ministério aponta um raio-x da situação da fauna no território brasileiro. Segundo o livro, cerca de 160 aves, 20 répteis e 16 anfíbios estão ameaçados de extinção. Fato que levou o ministro a declarar que é preciso “criar novas unidades de preservação” do meio ambiente.
Pouco sabe o ministro que na floresta do sr. Paiva os animais, plantas e árvores encontraram por lá um refúgio para sobreviverem. Entre as raridades do quintal, estão quatro Pau-Brasil. Um deles já atinge quatro metros de altura. “Aqui também tem mais de 57 tipos de aves. Entre elas um tucano e um urutau”, conta o aposentado. Também existem no quintal quatro lagartos tiú, trinta sagüis e os inúmeros insetos.
Visite a floresta
Andar entre colunas de árvores que atingem uma altura equivalente a um prédio de quatro andares não é privilégio somente do aposentado Milton Paiva. Ele abre as portas de sua residência para escoteiros, estudantes e pesquisadores. Com as constantes visitas ele montou o projeto, ainda não reconhecido, M.A.E.S (Meio Ambiente, Educação, e Saúde) com objetivo de promover a educação ambiental, inclusão social e prática de ensinamento de cidadania.
Segundo o aposentado, a idéia do projeto já existia em sua memória, mas o desejo aumentou quando líderes mundiais de 120 países produziram a “Agenda 21”. O documento diz que a humanidade tem que preservar a biodiversidade do planeta, a totalidade de espécies de plantas e animais. O documento foi elaborado durante a Cúpula da Terra, em 1992, realizada no Rio de Janeiro. No documento existem também outras diretrizes de como os países podem conseguir o “desenvolvimento sustentável”.
Com o rótulo de “pensar globalmente e agir localmente”, Paiva disse que tem conseguido resultados. “Depois das visitas em meu quintal, a pessoa passa a compreender melhor que a floresta como um todo não é apenas uma aglomeração de árvores, mas sim um habitat de complexas comunidades de seres vivos, de importância para o equilíbrio ecológico”.
Biblioteca Comunitária
Além do Cerrado e da Mata Atlântica, Milton Paiva mantém no seu quintal uma biblioteca comunitária com mais de 25 mil livros, não catalogados, que vão des a livros de literatura a livros técnicos. Ainda existe no seu terreno uma sala de aula com 17 cadeiras e seis computadores onde são oferecidos aulas de alfabetização de adultos e de inclusão digital.

Primeiro dos 25 mil livros foi um dicionário
A biblioteca começou quando o aposentado ganhou um dicionário de seus pais como incentivo aos estudos após ele ter recebido uma medalha de melhor aluno da cidade de Jurucê onde morava na Fazenda da Serra. “Estava na primeira série. Gostei tanto do meu presente que nunca mais parei de ajuntar livro”, lembra.
Resultado disso é a biblioteca que fica aberta para a comunidade. “A maior satisfação da minha vida é ver pessoas chegando na minha casa para pegar um livro para ler ou ir até meu quintal para aprender um pouco mais sobre ecossistema”, revela o aposentado.
De acordo com últimos dados do IBGE, o Brasil tem 14,1 milhões de analfabetos. Para combater essa taxa em Ribeirão Preto, Paiva retirou dinheiro do seu bolso para construir tanto a biblioteca como a sala de inclusão digital e aulas de alfabetização.
“A atitude do Paiva é importante se levado em conta o contexto brasileiro, mas ao mesmo tempo é dramático saber que o país depende de atitudes isoladas que lutam em prol da alfabetização quando isso é dever do Estado”, disse o especialista em planejamento e avaliação educacional pela USP de Ribeirão Preto, José Marcelino de Rezende Pinto.
A primeira que o aposentado resolveu construir foi a biblioteca onde foram gastos R$ 5.000. “Na verdade peguei o dinheiro como empréstimo e o paguei depois de três anos”, revela. Assim que quitou a primeira dívida, pagas ao banco em 36 vezes, Paiva endividou-se novamente com mais R$ 3.000. O plano era construir a sala de aula. “Depois de quitar essa última dívida, vou gastar mais para ver a sala em excelentes condições para virem mais pessoas aprender”, comenta.
Quando perguntado sobre a freqüência dos visitantes em sua biblioteca, Paiva não conteve a emoção e deixou escapar dos olhos lágrimas de descontentamento. “Aqui (Recreio Internacional) não era fechado. Em 2003 colocaram guarita e muros ao redor da gente e chamaram aqui de condomínio. Por isso as pessoas deixaram de vir aqui”, desabafa.
Paiva ainda comentou que depois que o bairro se transformou em condomínio fechado, por atitude de outros moradores, o transporte coletivo de Ribeirão Preto deixou de passar no Recreio Internacional fato que dificulta a vinda de mais pessoas. “Não pode passar ônibus em área particular por isso tiramos a linha do condomínio”, disse o gerente de transporte coletivo da Transerp, Reynaldo Lapate.
2 Comentários
Gostaria de informar-vos de que José Milton Ferreira Paiva, veio a óbito hoje, dia 24/03/2009 as 07:10 da manhã. Acho que seria muito prudente fazer um artigo sobre ele, pois comentam-se muito das atitudes missionárias do mesmo. Qualquer informação a mais, fico a disposição por email. Abraços.
Olá Renan, sempre passo por aqui para matar saudade infinita de meu pai, nunca pensei que um dia pudesse perder este ser tão INSUBISTITUIVEL naõ para mim, mas para meio ambiente e para comunidade.
No próximo dia 20/11/2009 ele faria 61 anos caso tenha interesse de prestigiar homenagear no jornal que você tem contato…mesmo ausente estou a disposição, me avise.
One Trackback/Pingback
[...] http://www.renangouvea.wordpress.com/aprenda-a-viver/ [...]