A reportagem sobre os 50 anos da Bossa Nova publicada no Jornalismo com Seriedade serviu como base para o programa espacial “Som do Beco” tocado na rádio Cultura de São Paulo em 2007. O programa foi produzido por estudantes de jornalismo da UNAERP na apresentação de Matheus Scavazzini e Maria Daniela Marques.

 

50 anos de Bossa Nova, a autêntica senhora sobrevive

 

Para aqueles que acham que rua é apenas espaço de passagem é porque nunca ouviram falar de um beco na capital carioca. Esse ambiente tão pequeno resguarda a história de uma geração de vários artistas brasileiros que acreditaram no futuro e conseguiram realizar o sonho de levar a Bossa Nova nos quatro cantos do planeta

 

POR Renan Gouvêa

Praia da Barra da Tijuca, Maracanã, Arcos da Lapa, Pão de Açúcar, Corcovado, Cristo Redentor e a cidade em si. Tudo isso descreve o Rio de Janeiro que acatou a incumbência de desvendar para o mundo, a partir de 1958, o samba simples e harmonioso chamado Bossa Nova. Foi nessa “cidade maravilhosa” que o público da elite carioca rompeu o tradicionalismo do samba, de ritmos americanos e caribenhos, ao esboçar composições mais elaboradas e letras coloquiais, redescobrindo as batidas e vozes cantadas nos mais altos morros de suas favelas.

           Grande parte do repertório desse movimento aconteceu na rua Duvivier, Copacabana no Rio, conhecida como Beco das Garrafas, batizada pelos próprios freqüentadores que eram alvos de garrafadas atiradas por moradores de três prédios vizinhos devido ao barulho que faziam madrugada adentro.

         “O povo ficava indignado com a gente porque debaixo daquela marquise o bicho pegava. Era um falando com o outro perguntando das músicas se estavam prontas, enfim, era um ‘teretetê’ danado e o povo jogava garrafa mesmo”, recorda Leny Andrade, revelada aos 17 anos no Bottle´s Bar, uma das três boates do Beco das Garrafas.

         Atualmente considerado o berço do samba-jazz e patrimônio cultural brasileiro o Beco das Garrafas revelou nomes lendários que ali passaram como Tom Jobim, Vinicius de Morais, Nara Leão, Jorge Bem Jor, Elis Regina, Wilson Simonal, João Gilberto, Newton Mendonça, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli e tanto outros que fizeram da música brasileira uma história. A dupla Tom e Vinicius foram os principais compositores do nosso país que mostraram a charmosa harmonia de “Garota de Ipanema” que se tornou canção brasileira mais conhecida em todo o mundo, depois de “Aquarela do Brasil” de Ari Barroso.

         Desde então, segundo o jornalista e escritor Ruy Castro, que reconstruiu a história do Beco das Garrafas contada num livro ao entrevistar personagens da época, a Bossa Nova começou a ganhar mais adeptos por conta dos encontros no Beco das Garrafas que incluíam as boates Bottle’s Bar, Ma Giffe, Bacará e Little Club. “Estranhamente, cabia no Beco um piano e quarenta pessoas. Foi nesse ambiente contido que apareceram os cantores mais exuberantes da Bossa Nova. Eles cantavam de braços mais abertos, sentavam mais altos e cantavam também mais alto”, conta.

          Saindo do Beco das Garrafas, a Bossa Nova ganhou espaço na TV. O produtor e diretor de show Luiz Carlos Miele conheceu o compositor Ronaldo Bôscoli, com quem formou a dupla Miele & Boscoli. Os dois realizavam Pocket Shows no Beco das Garrafas, onde conviveram com artistas da música brasileira ainda no início da carreira. “Tínhamos uma relação muito boa desde o dia que nos conhecemos. Chamei o Bôscoli para falar da Bossa Nova na TV no programa Noite de Gala. Também foram ao programa João Gilberto, Tamba Trio, Roberto Menescal e outros que faziam Bossa. Foi assim que começamos tudo. Aí a Bossa estourou de vez”, lembra Luis Carlos Miele

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Aqueles que nunca visitaram o Rio de Janeiro dizem que a cidade, entre outros problemas, é muito violenta. Para os cariocas o Rio sempre será lindo. Aos desafios que a cidade enfrenta, esperam-se que sejam solucionados. Enquanto isso não acontece é a “bossa”, ou o jeito, dos cariocas de se adaptarem ao espaço que o cercam em inventar coisas novas como a Bossa Nova. Nessa receita é indispensável os ingredientes criatividade e bom humor

 

“Bossa” sempre existiu

POR Renan Gouvêa

A Bossa Nova, associada com o crescimento urbano brasileiro, para muitos críticos iniciou-se em agosto de 1958 em um lançamento do compacto do violonista baiano João Gilberto, considerado o ‘papa’ do movimento, intitulado “Chega de Saudade” de Vinicius de Morais e Tom Jobim. Mas críticos afirmam que a ‘bossa’, independentemente da idoneidade dos músicos, sempre esteve presente na história da música brasileira.

           Ruy Castro tido como um dos mais conceituados pesquisadores da Bossa Nova e interessado no comportamento social brasileiro nos anos 50 e 60, comentou que ele chegou a conclusão de que a Bossa Nova, independentemente do talento de Tom, Vinicius e João Gilberto, sempre existiu. “Eu cheguei a conclusão que a bossa sempre existiu na música brasileira. A bossa não é uma coisa dos consagrados interpretes e compositores do movimento. Ela vem muito antes de 58. Vem desde quando o brasileiro descobriu e usava a palavra bossa”, explica.

         O termo “bossa” era uma gíria carioca que significava jeito, maneira ou modo. Quando alguém fazia algo diferente, original, de maneira fácil e simples, dizia-se que esse alguém tinha “bossa”. “Quem leu o romance Memórias de um sargento de Milícias do Manuel Antonio de Almeida publicada entre 1852 e 1854 vai descobrir que a palavra bossa já era utilizada”, argumenta Castro. Para ele o termo “bossa” é uma característica brasileira de muito tempo e não só após 1958, ano que a Bossa Nova passa a existir. 

         A primeira dama da Bossa, Leny Andrade, conhecida no Beco pela sua notável capacidade de improvisação também comentou que no Beco das Garrafas foi onde a Bossa Nova começou a ser escutadas por muitas pessoas e que antes os músicos e interpretes do movimento se reuniam em apartamentos. Um deles era o de Nara Leão, musa da Bossa Nova, na Av. Atlântica em Copacabana, próximo a rua Duvivier. Sem espaço os amigos tiveram que ir pára rua, ou melhor, no Beco das Garrafas. “Lá nós ficávamos até tarde da noite conversando exaustivamente sobre música. Quando vimos a Bossa Nova já era escutada por muita gente”, comenta Leny. 

         Entre os personagens que fielmente iam ao Beco estavam, além de Nara, Billy Blanco, Carlos Lyra, Roberto Menescal e Sergio Ricardo, entre outros. O grupo foi aumentando abraçando também Chico Feitosa, João Gilberto, Luis Carlos Vinhas, Ricardo Boscoli e muitos outros. “Cada um do seu jeito de fazer as coisas buscava a harmonia que pedia a letra. Não foi uma coisa isolada, mas sim em conjunto que passou a significar Bossa Nova”, afirma Leny.

Outro lado: Calos Lyra, um dos frequentadores do Beco das Garrafas, reconhece a importância do Beco, mas segundo ele, a lenda de que a Bossa Nova nasceu no Beco das Garrafas tenha sido criada por Bôscoli, da dupla Miele & Bôscoli, com intuito de divulgar o lugar e de se colocar no epicentro dos eventos. “O Beco foi importante, mas lá nunca foi o berço da Bossa Nova. Apenas mais um lugar no Rio de Janeiro que se rendeu àqueles jovens tocando e cantando Bossa Nova”, revela.

            Os encontros entre músicos e compositores da Bossa Nova, ainda segundo Lyra, aconteceram em outros lugares antes de 1958, como à noite nas praias, nas casas de D. Ing na Urca, na de Lula Frei, de Tom Jobim, de Vinicius e na rua do Bené Nunes que os apresentou para Millôr Fernandes, Antonio Maria, Ary Barroso, e muitos outros que se reuniam por lá. “Só na casa da Nara também foi criada por Bôscoli, na época seu namorado. Sendo jornalista ele tinha uma coluna a sua disposição, foi aí que se disseminou essa lenda”, finaliza.

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Para sempre Bossa Nova:

Atualmente, as coisas mudaram. Essa simpática senhorinha, Bossa Nova, que conquistou o mundo já não está em todos os continentes. Mas jovens talentos da nossa Música Popular Brasileira acrescentaram o toque eletrônico nas batidas da Bossa Nova,  criando um novo estilo musical o chamado “Ecos do Beco”. Se dependermos deles, que têm os compositores e interpretes do Beco das Garrafas como fonte de inspiração, a Bossa Nova continuará por toda eternidade.

Simoninha, filho do Wilson Simonal é um deles. Tendo o pai como modelo profissional ele, sempre que possível, ‘relê’ em seus shows os momentos da Bossa Nova. “Meu pai é meu exemplo. Ele gostava muito de fazer Bossa Nova. Com relação a essa paixão na música eu também quero mostrar”, disse.  

           Outro exemplo de que a Bossa Nova continua é o grupo de Alexandre Moreira, Marcelinho Da Lua e Márcio Menescal engenheiros de som que um dia resolveram remixar uma gravação de “Só Danço Samba”, do grupo Os Cariocas, quinteto brasileiro que alcançaram sucesso ao fazer interpretações da Bossa Nova. “Foi uma coisa meio que na brincadeira e acabou dando certo. Nós mostramos a versão eletrônica para ‘Os Cariocas’ e eles gostaram. Aí resolvemos montar um disco inteiro e colocamos o nome de Bossacucanova”, comenta Moreira.

          O então Bossacucanova foi, em 1999, convidado para fazer uma turnê pelos Estados Unidos e Canadá e teve seu disco distribuído nos mercados de lá e da Europa. “Eu acredito que a Bossa Nova é eterna. Ela nunca vai acabar. Os brasileiros é que não conseguem dimensionar o quão grande é a Bossa no mundo”, desabafa Moreira. 

           Outro exemplo é também pelo som eletrônico da bossa de Maria Fernanda Dutra Clemente, a Fernanda Porto, que traz na sua bagagem cultural o repertório da Bossa Nova. “Eu sempre me interessei por música. Nos meus 14 anos eu estudei enlouquecidamente piano e nessa época eu gostava de cantar e compor MPB. Daí em diante eu não parei mais de compor MPB”, lembra Fernanda.

             Resultado dessas composições aconteceu na década de 90 em que Fernanda realizou seus primeiros shows no circuito cultural na capital paulista. “Já em 2004 eu tive o privilégio de cantar junto com o Chico Buarque na trilha sonora de Cabra Cega. Nós gravamos a versão eletrônica de Roda Viva”, conta Fernanda. (POR Renan Gouvêa).

 

 

2 Comentários

  1. Ficou lindo, a BOSSA NOVA é, realmente uma simplicidade e perfeita.

  2. isso no meu trabalho vai fica lindo,adorei a história da bossa nova.


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